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Naninha, ursinho e paninho: como registrar o objeto de apego antes que ele se perca

Naninha, ursinho e paninho: a série de fotos do objeto de apego ano a ano, a história de como ele chegou e o que fazer no dia em que ele some ou é aposentado.

Objeto de apego é aquele paninho, ursinho, naninha ou fralda que a criança elege e passa a levar para todo lugar, principalmente na hora de dormir. O termo técnico, objeto transicional, vem de um artigo do pediatra e psicanalista Donald Winnicott publicado no International Journal of Psycho-Analysis em 1953. Para quem guarda memória, o que importa é outro dado: esse objeto ocupa um espaço enorme na infância, aparece em centenas de fotos sem nunca ser o assunto de nenhuma, e um dia some, desbota ou é aposentado. Este guia entrega a série de fotos do mesmo objeto ano a ano, a história de como ele chegou, o nome que a criança deu, por que fotografar antes de lavar e o que fazer no dia em que ele desaparece.

Uma observação antes de seguir: este texto é sobre registrar, não sobre quando ou como tirar o objeto da criança. Essa conversa é de cada família, e quem acompanha é o pediatra. Aqui a gente trata só da memória.

Por que fotografar a naninha enquanto ela ainda está em uso?

Porque ela está na categoria mais traiçoeira do acervo de família: a das coisas que parecem permanentes. A gente fotografa o que é raro. O primeiro passo, a viagem, o aniversário. O que aparece todo santo dia ninguém registra de propósito, exatamente por aparecer todo dia. É a mesma lógica que defendemos em registrar o comum, não só o marco.

O resultado é previsível. Abra a galeria e procure uma foto em que o ursinho apareça inteiro, nítido e como assunto principal. Provavelmente não existe. Ele aparece de canto, cortado, desfocado, no fundo de uma foto do rosto da criança. Existem trezentas imagens em que ele está presente e nenhuma em que dê para ver como ele era.

E ele muda rápido. O paninho encolhe e desbota a cada lavagem, o urso perde o olho, a costura é refeita numa cor que não combina, a orelha vai embora. Em três anos, o objeto da foto e o objeto da estante já são quase dois objetos diferentes. É o mesmo problema das lembranças físicas do bebê guardadas em caixa, com uma diferença importante: aquelas já pararam no tempo, e esta ainda está na mão da criança, sendo gasta todo dia.

O que registrar além da foto do objeto?

A foto sozinha guarda o aspecto. O que dá sentido a ela é um punhado de informação que ninguém acha que vai esquecer e que some primeiro.

O que registrarPor que importaComo fazerQuando
O objeto sozinho, inteiroÉ a única imagem que mostra como ele realmente eraFundo liso e claro, luz de janela, visto de cimaUma vez por ano
O objeto em usoMostra o lugar que ele ocupava na rotinaFoto da cena real, sem posarSempre que aparecer
O nome que a criança deuÉ intransferível e some em poucos anosUma linha escrita, com a grafia que ela usaAssim que ela nomear
A história de como ele chegouQuem deu, em que data, se foi escolhido ou sobrouUm parágrafo escritoUma vez, o quanto antes
A voz da criança falando deleO registro que envelhece melhor de todosTrinta segundos de áudioUma vez por ano
O estado antes de lavar ou remendarO desgaste faz parte da identidade do objetoFoto do detalhe, bem de pertoAntes de cada reparo

O nome merece atenção especial. Criança pequena quase nunca chama a naninha pelo nome do bicho: chama de "Nenê", "Fofo", "Bibi", "Lala", uma palavra inventada que às vezes nem os pais sabem de onde veio. Esse nome desaparece do vocabulário da família em pouquíssimo tempo, e depois ninguém lembra direito. Escreva com a grafia exata, inclusive se for uma palavra que não existe. O mesmo cuidado vale para as palavras que o bebê fala errado.

Como fazer a série do mesmo objeto ano a ano?

É o registro de maior retorno e o mais barato de manter: uma foto por ano, sempre igual, do objeto sozinho. Em sequência, essas imagens deixam de ser fofas e viram documento, porque mostram o desgaste acumulado que nenhuma foto isolada consegue mostrar.

O mesmo objeto, uma foto por ano ano 1 inteiro ano 2 mais claro ano 3 um remendo ano 4 quase nada mesmo fundo, mesmo enquadramento, mesma data todo ano
Isoladas, as fotos são só o mesmo bichinho. Em série, elas mostram o tempo que passou por cima dele.

A receita é fixar três coisas e não mexer em nenhuma:

  1. Um fundo fixo. Uma toalha branca, a mesa clara da cozinha, uma folha de papel grande. Liso e claro, sempre o mesmo.
  2. Um enquadramento fixo. De cima, com o objeto inteiro e uma margem sobrando. Se puder, ponha uma régua ou uma fita métrica ao lado no primeiro ano e repita: a escala mostra o encolhimento de um jeito que a foto sozinha não mostra.
  3. Uma data fixa. O aniversário da criança é a mais fácil de lembrar. Data fixa é o que impede a série de morrer no segundo ano.

Faça a foto do objeto sozinho e, na sequência, uma dele na mão da criança. As duas juntas contam a história inteira: o que ele era e o que ele significava.

Por que fotografar antes de lavar ou de remendar?

Porque lavagem e conserto apagam informação de uma vez só, e não tem como voltar atrás. A mancha do suco, a ponta que a criança chupava e ficou dura, o furo na costura, a cor original que só sobreviveu numa dobra escondida. Tudo isso é a biografia do objeto, e é o que diferencia aquele urso de qualquer outro igual comprado na mesma loja.

O hábito custa trinta segundos:

  • Uma foto geral antes, no fundo liso, do jeito que ele está.
  • Duas ou três fotos de detalhe, bem de perto, nas partes gastas.
  • Uma linha na legenda dizendo o que vai ser feito. "Primeira lavagem depois da viagem" ou "costura da orelha refeita pela vó".
  • Uma foto depois, se a mudança tiver sido grande.

Quando o objeto chega perto do fim da vida útil e a família cogita aposentá-lo, essa é a hora de caprichar. O registro feito de propósito é o que permite que a foto ocupe o lugar do objeto depois, argumento que desenvolvemos em o que fazer com as lembranças físicas do bebê.

E no dia em que a naninha some?

Acontece, e acontece muito: no shopping, no carro do tio, no hotel, na casa da avó. É normalmente um dia difícil para a criança e para a casa inteira, e não é sobre isso que este texto trata. Sobre o registro, três coisas ajudam:

  • A série anual vira a única versão que resta. Se ela existir, a família consegue mostrar exatamente como ele era, em cada fase. Se não existir, resta procurar no fundo de outras fotos, o que quase sempre decepciona.
  • Registre o episódio com data e lugar. Parece estranho anotar um sumiço, mas essa costuma virar uma das histórias mais contadas da família, e em cinco anos ninguém lembra se foi no posto da estrada ou no aeroporto.
  • Grave a criança falando, se ela quiser. Trinta segundos dela contando quem era o bichinho e o que aconteceu. É um registro raro e ninguém precisa transformar isso em entrevista: se a criança não quiser, não insista.

O mesmo vale para o caso em que existe um substituto, comprado igual, que a criança aceita ou rejeita. Fotografe os dois lado a lado. É um documento e tanto.

E quando o objeto é aposentado?

A aposentadoria costuma ser silenciosa. Não tem data, nem aviso: um dia a criança simplesmente para de pedir, e o objeto migra para a prateleira, depois para a caixa, depois para o armário da lavanderia. Meses depois, ninguém sabe dizer quando foi a última noite em que ele dormiu na cama.

Por isso vale marcar o fim, mesmo que aproximado:

  • Anote o mês em que você percebeu. "Por volta de julho de 2027 ele parou de ir para a cama" é infinitamente melhor do que nada.
  • Faça a última foto da série, mesmo fora da data combinada.
  • Guarde o objeto físico em um lugar decidido, e não no lugar em que ele foi parar. Se a família optar por não guardar, a foto bem feita é o que fica.
  • Pergunte para a criança, anos depois, o que ela lembra. A resposta aos oito anos é completamente diferente da resposta aos quatro, e as duas valem. Um roteiro para isso está em perguntas para fazer para o seu filho todo ano.

Onde guardar as fotos e a história do objeto?

O erro comum é criar uma pasta chamada "naninha" e achar que resolveu. Ninguém abre essa pasta dez anos depois. O objeto de apego não é um assunto à parte: ele é um pedaço da infância da criança, e precisa estar dentro dela.

Três cuidados bastam:

  • Mantenha foto, nome, história e áudio juntos. Separados, cada peça perde metade do sentido.
  • Datar sempre. A série anual só funciona em ordem. Se você digitalizou imagens antigas e as datas vieram erradas, o conserto está em como corrigir a data da foto.
  • Escreva o nome por extenso na legenda. É o que vai permitir reencontrar tudo de uma vez, anos depois.

O Memmora foi feito para esse tipo de conjunto: é uma linha do tempo privada da criança, em que a foto anual do objeto, o parágrafo contando como ele chegou e o áudio dela dizendo o nome que inventou ficam juntos, na data certa, sem virar post público e sem se perder numa galeria de vinte mil arquivos. A família convidada acompanha de graça, e a criança reencontra tudo quando for adulta. Se a naninha do seu filho está na mão dele agora, crie sua conta e faça a foto deste ano antes da próxima lavagem.

O que levar deste texto

O objeto de apego é a coisa mais presente e menos fotografada da infância, porque ninguém registra o que aparece todo dia. Faça uma foto por ano do objeto sozinho, no mesmo fundo claro, no mesmo enquadramento e na mesma data, e uma dele em uso na mão da criança. Escreva o nome que ela inventou com a grafia exata e a história de como ele chegou. Fotografe antes de cada lavagem e de cada remendo, porque o desgaste é a identidade dele. Marque o dia em que ele some ou o mês em que ele é aposentado, mesmo que aproximado. E guarde tudo dentro da história da criança, com data e com o nome escrito, para que ela reencontre adulta.

Perguntas frequentes

O que é um objeto de apego?

É o paninho, o ursinho, a naninha ou a fralda que a criança elege e leva para todo lugar, principalmente na hora de dormir e nos momentos de transição. O termo objeto transicional vem de um artigo do pediatra e psicanalista Donald Winnicott publicado em 1953. Para o registro de memória, o que interessa é simples: esse objeto ocupa um lugar enorme na infância e some sem aviso, então vale fotografar enquanto ele ainda está em uso.

Por que fotografar a naninha se ela está aqui todo dia?

Justamente por isso. O objeto que aparece todo dia é o que ninguém fotografa de propósito, porque parece permanente. Ele aparece de canto, no fundo de outras fotos, nunca sozinho e nunca inteiro. Quando ele some, é lavado até desbotar ou é aposentado, a família descobre que não existe uma única imagem dele em que dê para ver o objeto direito.

Como fazer a foto do objeto de apego ficar boa?

Fotografe duas versões. A primeira é o objeto sozinho, sobre um fundo liso e claro, com luz de janela, visto de cima e inteiro no quadro, como quem fotografa um documento. A segunda é o objeto em uso, na mão da criança, no sofá, no carro, no colo. A primeira preserva o aspecto e o tamanho dele, e a segunda preserva o lugar que ele ocupava na vida.

Vale fotografar antes de lavar?

Vale, e é o registro que a maioria das famílias perde. O desgaste faz parte da identidade do objeto: a mancha, a ponta puxada, a costura refeita, a cor que já não é a original. A lavagem e o remendo apagam parte disso de uma vez. Fotografe antes, fotografe depois se quiser, e anote na legenda o que mudou e por quê.

O que fazer no dia em que a naninha some?

Primeiro, aceite que a foto vira a única versão que resta, e é por isso que ela tem tanto valor. Se existir a série anual, ela já responde como o objeto era em cada fase. Registre também o que aconteceu, com data e lugar, porque essa costuma ser uma história que a família conta por anos. Se a criança quiser falar sobre isso, gravar trinta segundos da fala dela é um registro raro.

Onde guardar as fotos e a história do objeto de apego?

Guarde junto com o resto da infância da criança, na data em que cada coisa aconteceu, e não numa pasta isolada. O conjunto que vale é a série anual, a foto do objeto sozinho, a história de como ele chegou, o nome que a criança deu e o áudio dela falando dele. No Memmora tudo isso fica na linha do tempo privada da criança, com a família convidada por perto.

Equipe Memmora
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